No processo de Parir I


Quando cheguei nas 40 semanas, o medo, o terror que tinha da cirurgia, aumentava progressivamente. Aumentava a possibilidade da cesária, e com isso, aumentava a possibilidade de morrer.

Para quem não acompanhou meus últimos posts, devo esclarecer uma coisa: sou hipocondríaca. Tenho o medo constante de morte. Pois é... sou quase uma psicóloga e ainda não me curei disso. Pois é... sou uma cristã e descobri não ter fé suficiente. Por enquanto sou assim: maximizo sintomas e penso constantemente na possibilidade de morrer a qualquer momento. Uma dor de cabeça vira um tumor, uma palpitação leve vira doença cardíaca, um inchaço qualquer vira um câncer escondido etc... Logo, uma cirurgia soa, pra mim,  uma possibilidade de hemorragia, eclâmpsia, infecção hospitalar e diabo a 4. Quem me conhece e não sabe desta doença talvez tenha se assustado agora. Todos temos um tipo de loucura. Essa é a minha. E era tamanha a ponto de escrever uma carta póstuma à cada familiar.

Com 40 semanas e nem sinal da Paola, mesmo com os exercícios, comecei a me desesperar. Embora tenha sido impedida de ter meu PN na casa de parto, continuei o acompanhamento lá, e lá elas continuavam me incentivando a esperar as contrações, dizendo que tamanho e peso do bebê não eram impedimentos para o PN. Eu sabia. Já tinha lido muito sobre o assunto. Porém não era só isso. Havia a 'maledita' diabete gestacional e precisava de uma opinião médica.

Na segunda-feira comecei a busca por hospitais. Meu convênio era uma 'inhaca' e não tinha muitas opções. Começamos pela Luz da Vila Mariana, onde tinha ouvido dizer que era especializado em alto-risco, o que trazia certa segurança, caso algo se complicasse.

Ao entrar na sala do médico e realizar o exame de toque, ele riu de mim quando disse que ainda esperava pelo PN. Disse que minha AU estava enorme, que a bebê era macrossômica e que a cabecinha dela estava flexível, o que significava que, a essa altura do campeonato, não fixaria mais. Era um risco ficar esperando, devido a diabete. Ela estava engordando 40g por dia, e ao nascer, se viva, poderia adquirir a diabete e precisar de insulina para o resto da vida. E outros probleminhas tanto pra ela quanto pra mim.

A esta altura, também já estava com medo do PN. Ela estava muito grande,com probabilidade de mais de 4kg, e isso tudo passando por baixo, não ia ser muito legal nem 'romântico' como tinha sonhado.

O médico, então, sugere me internar naquele mesmo instante, e naquele mesmo instante meu coração pulou pela boca, enquanto minha mãe pulou de alegria. Pra ela, ver a neta o quanto antes era a única questão a se pensar. Pra mim, era minha sentença.

Disse ao médico que precisava de um tempo para digerir o parto cesária e que não estava pronta psicologicamente para isso. Voltaria no outro dia. Os batimentos dela estavam ok e não aconteceria nada de um dia para o outro. Na volta, passei na casa de parto. Precisava desabafar e saber com as enfermeiras se o que o médico tinha me dito não era mais um ludibriamento do mercado negro da cesária. Novamente ela me incentivou a esperar mais um pouco os sinais no PN. E agora??? Meu tempo está acabando. Meu desejo me pede para esperar, a ciência me pede para apressar! Que pressão psicológica!

No carro minha mãe briga comigo para eu parar de besteira. Desabo a chorar. Chego em casa e meu marido, querendo saber de tudo, já interpreta pelas minhas lágrimas. Não quero papo. Quero meu quarto, minha cama, e a porta fechada. Ele me abraça, me pede pra respirar e me apoia, seja qual for minha decisão. Minha mãe, volta para me consolar e me propor esperar até, no máximo, sexta. Uma semana para me preparar psicologicamente e dar chance para algum sinal aparecer.

Respiro fundo e decido: Não quero colocar minha bebê em risco. Seja o que Deus quiser. Fico terça em casa, assisto o jogo do Brasil (semi-final da copa), e quarta me interno.

Terça, ainda com medo, procurei contatar todas as mães que estavam online para tirar minhas dúvidas. Assistimos em familia o jogo (brasil 1, alemanha 7) que me rendeu boas risadas, meus pais foram embora, e à noite, fiquei só com meu marido. Conversei com ele sobre as cartas póstumas e o que queria que ele fizesse caso não voltasse da cirurgia. Mesmo achando o assunto ridículo, ele ouviu.

Meu sono sempre foi muito pesado. Nem dor de barriga me deixava acordada. Não conhecia a palavra insônia. Nesta noite, porém, não preguei o olho. De madrugada li uma meditação que foi o meu conforto. Nela, Deus me dizia que sabia quem eu era, e que se eu pudesse, fugiria da situação, mas que não importava quem eu era, mas quem ELE era e o que Ele era capaz de fazer, encerrando com o verso: "sê forte e corajoso. Eu serei contigo!".

E então eu fui.

Comentários

  1. Linda história Camila. Tive um caso semelhante, porém já tinha um hospital e médicos prontos caso meu sonho de PN não desse certo. Eu suportei até 41 semanas, mas na ultima consulta que tive com meu médico ele me deu um prazo de mais 3 dias e até o último plantão dele, ou seja, o Artur Francisco tinha Sábado, Domingo e Segunda até as 20h30 para que ele desse algum sinal caso contrário seria cesariana. E não deu outra o Artur nasceu as 20h34 de segunda-feira dia 25/06/2012, já com meconio. Não me arrependo do meu parto ter sido cesariana, porém por meu desejo ser muito grande pelo PN depois que tive o Artur tive algumas complicações por motivos psicológicos e cheguei a perder durante 1 dia inteiro minha visão. Mais Deus é maravilhoso e depois de muita oração e amor voltei a enxergar e hoje vejo o imenso amor de Deus por mim ao me dar esse presente maravilhoso que é meu Artur Francisco. Super beijo.

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  2. Nossa, Naiana! Que experiência forte a sua! Digna de um blog também. Votos de saúde plena à você e seu filhote! Que Deus continue operando e abençoando vocês! Beijos!

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  3. Amém Camila. Te desejo o mesmo. Bjinhos

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