No processo de Parir II

Quarta-feira, 9 de Julho de 2014. 4 dias depois da DPP. Feriado da Revolução Constitucionalista. 7h AM. Ruas vazias - SP abrindo ala para a Paola nascer. Escolhi um bom dia em relação ao trânsito infernal daqui. Só não sei se foi um bom dia para o hospital.

Como iria fazer o parto com plantonista, tive que aguardar atendimento normal no Pronto socorro. LOTADO. Às 9h não tinha sido atendida ainda. Estava desde as 22h do dia anterior de jejum. Se tem algo que me deixa de mau humor é ficar com fome, e ali, meu delgado era devorado pelo grosso. Estava tensa e irritada. Minha mãe ficava tirando fotos minhas e mandando para os parentes. Minha vontade era jogar longe o celular, mas não queria jogar um balde de água fria na empolgação dela de receber a neta.

Quando fui chamada, um enorme frio na espinha. Meu Deus! É real! Começou! Não tem volta, não tem saída! Já colocaram o acesso na minha mão direita e que doeu à beça! Preenchi uma papelada de termos e normas, e não demorou muito, me levaram para o pré-parto.

Morrendo de medo de infecções, tomei todo o cuidado ao tirar a roupa e não ficar encostando em maçanetas e torneiras de banheiro. Ali, esperei, mais ou menos tranquila, dando rápidas dormidinhas para não desmaiar de fome até 14h. Contou? Foram 16h em jejum! Não sei como consegui. Por ser feriado, haviam muitas gestantes para poucos médicos. Tive que esperar horários de almoço, trocas de plantão...

Quando, enfim, me chamaram, estava esperando ser levada à outro local, outro andar, mas não. Era bem na sala ao lado e já estava tudo preparado. Mal subi na maca, uma médica muito simpática já me preparou para anestesia. "Dói?". "Nada!". E foi nada mesmo. Avisei que poderia ter uma crise de pressão alta pelo medo que estava e ela começou a me distrair dizendo que quando ganhasse o bebê dela, iria como eu: maquiada e unhas impecáveis. Efeitos de dormência instantâneos. Leve incômodo ao colocar a sonda. Entraram as médicas do parto, se apresentaram e começaram a me tampar.

Já não sentia nada, só percebia o quanto estavam me movimentando. Estava tensa. O barulhinho da máquina que media minha pressão me dava pavor. De repente a anestesista avisa: Já começou! Já??? Como assim??? Onde está meu marido??? No mesmo tempo que perguntei ele apareceu, segurou minha mão e nos segundos seguintes o choro!

A rapidez destes acontecimentos foi quase na mesma proporção que talvez você tenha lido. Não tive tempo de ficar nervosa, ou de interagir com a filmagem. Na hora do choro, uma emoção muito grande, mas ao mesmo tempo frustrante, porque não participei do processo. Fiquei ali, inerte, passiva. Mas ela nasceu. Que choro forte! Passou por mim e foi ser pesada.

Meu marido estava em êxtase. Trouxeram ela para tirar fotos e mais uma frustração: não podia segurá-la. Foi rápido. Levaram ela novamente, meu marido saiu, e fiquei sozinha para ser costurada.

Ao terminar, pude amamentar minha filha. Colocaram ela nos meus braços, mas minha posição deitada não permitia sequer vê-la direito. Mas foi emocionante vê-la pegar tão bem o bico do meu peito. Tinha ouvido que muitas mães que fizeram cesária tinham dificuldades em amamentar por não contar com os hormônios produzidos no PN. Não foi meu caso. Ela mamou, e mamou muito bem. Não doeu nadinha e achei uma delícia estar novamente conectada à ela. Deixaram meus pais entraram e minha mãe... bem... não sei bem como descrevê-la. Estava em outra dimensão. Tão alucinada que não deixava nem meu pai e nem meu marido chegar perto.

Logo que ela terminou de mamar, a levaram para o berçário, e eu, para o pós-parto. Uma sala vazia com aquela maquininha pavorante de medir minha pressão. Os bipes me deixavam mais nervosa. Ali foi a parte mais difícil! Teria que ficar até levantar os joelhos. Demorou umas 2h e enfim, fui levada para o quarto.
Enquanto isso, Paola era a atração do berçário: a maior de todos os bebês. 4,155kg e 51cm.

O tempo foi passando e toda a enfermeira que entrava perguntava da minha filha. "Tem muitos bebês para dar banho". E foi assim: eu sem ela das 15h até às 23h.

Quando ela chegou, meu lado mãe tinha se aflorado. Assim, milagrosamente. Como se tivesse tirado de cena uma Camila e colocado outra. Só uma coisa da antiga que continuava, e na verdade piorava: a hipocondria. Agora não tinha só medo pela minha vida, mas pela dela. Era totalmente responsável por ela.

As noites no hospital não foram fáceis. Com dor, tinha que fazer tudo: limpar, banhar, amamentar... e ela simplesmente não dormia. Chorava a noite inteira, fazia meu seio de chupeta, e quando chamava, exausta, uma enfermeira, ela dava uma aparecida, mudava a bebê de posição, ela não parava de chorar, e elas diziam que era assim mesmo. Que ela havia trocado a noite pelo dia.

Foram 2 noites torturantes vendo a noite passar minuto por minuto. Quando enfim recebi alta, peguei meu pacotinho, embrulhei com todo o cuidado fomos embora.

Quando entrei no carro a ficha caiu. Deus havia sido muito bom. Tudo tinha dado certo. Quanta falta de fé da minha parte! Ela estava ali, perfeita, no meu colo. Juntas voltávamos para casa (para a casa da minha mãe, melhor dizendo. E o que seria de mim sem a ajuda dela!). Chorei como uma criança. Estava realmente emocionada. Minha filha era linda e sadia, e ali mesmo, orei agradecendo a Deus e ao mesmo tempo, pedindo perdão por não ter confiado plenamente nEle.

No final das contas, entendi os porquês dos meus questionamentos. Por que conheci a casa de parto? Porque o conhecimento que adquiri lá foi fenomenal. Aprendi coisas que muitas mães não sabem. Por que Deus permitiu ser cesária? Quando vi o tamanho da minha bebê saindo da barriga, tão inchada devido a diabete, percebi que o PN me faria estrago.
O PN ainda é um sonho. Ainda defendo a forma mais natural possível para uma criança vir ao mundo, mas há um movimento que 'diaboliza' a cesária. O nascimento da Paola não foi tão emocionante como seria um PN, mas era de risco, e foi a cirurgia que permitiu ela vir ao mundo sadia, e eu, sem correr riscos.
Se antes era defensora do parto Natural sem reservas, hoje sou defensora do parto que a mãe escolhe, depois de muito estudo e um certo "poder intuitivo", o que será melhor para ela e seu bebê.
Esperei o máximo que pude, mas um instinto materno me fez optar, mesmo com medo de morte, pelo melhor para minha filha. Parto normal, em geral, sempre será a melhor opção, mas ao 'diabolizar' a cesária, diminuímos mães que não possuem muita opção pelos riscos que carregam.

Meu próximo parto vou trabalhar de novo pelo meu sonho de parir 'romanticamente', e quem sabe tenha a sorte de dar um irmaozinhO para a Paola, mas friso: a cesária não deve ser usada em cartuns com dizeres: "minha barriga não tem zíper" etc.. E se achar exagero, ou "não é bem assim", quero que imagine uma mãe por cesária lendo isso sem ter tido opção. A cesária, embora mal utilizada na maioria das vezes, não deixa de ser um meio de ganhar e salvar vidas. Eu nunca tive medo de dor, mas aprendi a respeitar mulheres que possuem esse medo, como eu tinha o meu da cesária. Então seja por escolha, seja por riscos, certas condenações desvalorizam mães que passam por este procedimento, como se tornassem menos mães ao optarem por este meio.

Apoio toda a visão do discurso humanizado. De fato, muitas mulheres escolhem a cesária ludibriadas por médicos e seus mitos. Por isso apoio também que todas as mulheres busquem por INFORMAÇÃO sobre o assunto. Mas sendo a mulher informada, deixe que a 'hora H' dite as regras, e façamos nossa parte orientando os benefícios do PN, sem cartuns e posts inferiorizando o outro meio.

Tinha planejado AQUELE discurso para me gloriar de ter parido. Não fui capaz de parir, mas fui capaz de gerar. Me orgulho por ter vencido minha hipocondria. Tive que ter muita coragem para encarar uma cirurgia. E hoje, olhando para ela, me orgulho mais ainda, porque fiz, independente da forma como saiu, uma bebezinha linda!

Agora eu tenho algo para chamar de MINHA!

Termino hoje o primeiro ciclo da minha experiência de ser mãe. Os próximos posts será contando como foram os primeiros dias da Paola. Outra parte da missão que resume a expressão "Padecer no Paraíso"...

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