No processo de parir IV
Quando engravidei da minha primogênita, criei uma enorme expectativa para
o parto natural. Programei-me toda para que o nascimento dela fosse desta
forma. Porém, na mesma proporção que foi a expectativa, foi a frustração ao
saber que não poderia esperar mais os sinais naturais e teria que recorrer as intervenções
médicas.
Eu pesquisei muito sobre partos. Sabia todas as verdades e
mitos sobre o assunto.
Na gestação da Liz, entreguei tudo nas mãos de Deus. Será
como tiver que ser. Fiz apenas um trato com Ele: se o normal estiver fora do
alcance, quero esperar as contrações e saber que pelo menos ela veio na hora
certa.
Eu sentia tanto incômodo pélvico no final da gestação e
minha barriga estava tão grande, que tentava enxergar isso como pontos a favor para o
parto normal antes das 40 semanas.
Mas fez 40 e nem sinal. A essa altura, as pessoas estavam me chamando de ‘grávida de Taubaté’ (vide google). Tentava entrar na brincadeira, mas no fundo me incomodava. Estava tão gigante assim? E os famosos comentários: “nossa! Ainda?” ou “Não vai nascer mais não?”. Elaborava aquelas respostas malcriadas na cabeça, mas por fora apenas sorria (não me veja mal, todo mundo tem dessas).
Bom, como GRAÇAS AO MEU BOM DEUS eu não tive recorrência da diabetes gestacional, poderia correr o risco de esperar até o limite: 42. Comecei a me programar. Se os contrações não aparecessem até dia 3 de julho (DPP), pensaria na possibilidade de agendar para dia 9 (mesmo dia da Paola). Nem vem com essa coisa de ‘tadinha, e a exclusividade dela?’. Como ficam os gêmeos então? Besteira! Economia fala mais alto! Hahaha. Mesma festa para as duas.
Acontece que eu queria muito o normal. Orava todos os dias. Fiz exercícios, bati perna no centro, comi alimentos estimulantes (não sei a cientificidade disso), dei aquela namoradinha básica... nada. Dia 3 (exatamente a data limite que dei para Deus). Madrugada. Contrações. Sabia que não era mais as de treinamento. O incômodo era maior, a frequência também. Não acordei ninguém. Tudo sob controle. De manhã só informei o pessoal que tinha começado. O dia todo foi na mesma frequência e intensidade. Totalmente suportável. Pra falar bem a verdade, não doía. Era como uma cólica intensa que passava em um minuto.
Tarde para noite a frequência e a intensidade aumentaram. A frequência mais rápido que a intensidade. Saí de casa com chapinha feita e maquiada (como de praxe). Calmamente fomos ao hospital pois já estava de 10 em 10 minutos.
Estava feliz em saber que havia conseguido chegar ao tempo dela, esperançosa por acreditar estar indo tudo bem e surpresa por não estar me contorcendo de dor, crente que meu limiar era tranquilo, daquelas que só fazem uma forcinha pra sair.
Na sala demoraaaaada de espera, as contrações já estavam de 3 em 3 minutos. Quando entrei para fazer o cardiotoco, o médico, na sala em frente, olhava surpreso em como estava aguentando tão bem as contrações (já que estava há quase 24 horas em trabalho de parto e pela intensidade segundo o gráfico do exame).
Ao entrar na sala para fazer o exame de toque, a decepção: 0 de dilatação. Colo alto e espesso. Sabia o que significava, mas ainda assim insisti. “não dá pra esperar mais? A dilatação não é só na hora H?” O Dr. André, que com muito carinho e atenção viu minha ansiedade, explicou o que já sabia. Disse que não era por ‘ganhos’ que estava me dando as orientações. Não tive EVOLUÇÃO de dilatação. Eu já estava na hora "H", em trabalho de parto, a horas! Não adiantaria a espera! Ela só serviria para que passasse por toques desnecessários e as contrações e hormônios que estavam sendo liberados contribuíssem para Iminência de Rotura Uterina devido a cesárea anterior - mesmo sabendo da raridade disso, realmente não queria correr riscos. Além do mais, embora quisesse o parto normal, confesso que desta vez estava menos motivada. Em outras palavras, talvez pudesse ter esperado mais, mas 'brochei'. Queria minha filha logo nos braços.
Ele (dr.) me tranquilizou quando disse que tinha medo de cirurgia, teve paciência com minha resistência à internação, aguardou a tomada de decisão e agilizou o processo em plantão noturno (quase meia noite).
Depois da despedida doída da filha mais velha que queria muito ver a irmã nascendo e voltou chorando pra casa, depois da preparação, lá estava eu pronta para o que eu chamo de ‘carnificina’ (são 7 camadas de carne queimadas, oras!).
Meu marido entrou. Acho engraçado a curiosidade dele. Enquanto os médicos levantam os panos
com medo dos pais desmaiarem, o Rafa levantava o pescoço pra ver o que conseguia.
Desta vez ele participou da “saída”. Enquanto eu perguntava o tempo todo se estava tudo bem, rapidamente eles a colocaram do meu lado e a levaram. Ela demorou mais para chorar.
Ali, sozinha, esperava ser costurada e a foto tradicional de nós
3 (totalmente sem ângulo).
Se você estiver esperando a parte emocionante da história, sinto decepcionar. Não tem. A cesárea é assim: mecânica, sem emoção, sem esforço, sem contato pele a pele. Por isso, mesmo com duas cesáreas necessárias, continuo defensora do parto normal.
A diferença é que aprendi que não sou menos mãe por isso. Fiz tudo consciente e sem a sensação de estar sendo ludibriada.
O que tenho falado para muitas mães que pensam sobre qual parto fazer é: Pesquise! Leia e assista sobre o assunto (indicação: Renascimento do parto, o filme), mas siga seu coração E ORAÇÃO.
Eu aprendi a importância do parto normal, mas aprendi também a não 'endemoniar' a cesárea. Primeiro porque há as situações necessárias, e segundo porque as mães 'cesareantes' (inventei essa) não merecem se sentir inferiores pela forma como dão a luz. Seus medos, receios e, por vezes, falta de informação, devem ser respeitados. A gente pode encorajar, empoderar, informar, mas nunca, NUNCA minimizar.
Feitos os procedimentos, agora éramos nós, fazendo a nossa história e aprendendo juntas. Pesquisei o Hospital também. Aqui em SJC, sem muitas opções, optei pelo que fazia menos intervenções e tinha uma estrutura legal. Sendo assim, sabia que minha filha iria ficar comigo logo após o parto. Nem tomar banho ela tomou. Foi direto para mim. Mamou bem e era bem tranquila. Dormiu a noite toda.
No dia seguinte, não via a hora da irmã chegar para ver a reação (super emocionante)! Mas isso é parte da continuação. As duas juntas formam uma longa história que estou ansiosa para compartilhar, afinal mãe de duas.... é uma baita aventura! Estamos só começando!
O que posso adiantar é que, se o banho do primeiro parto foi difícil, mal conseguia me erguer totalmente, do segundo estava no chuveiro do hospital dando banho na mais velha de porta aberta e de olho na mais nova!
veja aqui a primeira parte: https://processodematernagem.blogspot.com.br/2018/01/relato-de-parto-parte-1.html

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